
Para ti,
Para ti menina do
...”Amo-te eternamente”...
Era uma manhã de Inverno e parece que choveu na minha cama. Quando se tem febre, diz que faz bem suar. Pelo menos um pouco. Mas esta manhã pareceu que tomei um banho. Pois, o suor era tanto que quando acordei, estava deitado numa poça. Mas nada suja. Porque tomei banho antes de ir dormir, os lençóis eram novos e eu apenas bebo água mineral Luso.
Ben-u-ron, cêgripe, ilvico, antigripine, maxilase... nem um resultou para que de manhã estivesse óptimo para trabalhar. Hoje faço de palhaço mais uma vez. O meu nariz já está vermelho de tanto assoar. Maldito seja o dia em que me lembrei de mudar as telhas partidas num dia de chuva. Agora sofro as consequências.
Hoje não dormiste aqui.
O teu lugar está seco. Limitei-me ao limite do meu espaço mesmo tu não estando, podendo chegares. Com certeza ficaste a fazer horas depois do teu turno, ou então... não sei.
Água fresca para acordar. Dói a garganta. A água fria faz doer a garganta quando molha a cara.
39ºC de febre esta manhã e tu que não voltas.
Precisava dos teus beijos para que depois ficasses doente como eu e pudesses fazer-me companhia. Ou espirrar para cima de ti, de propósito, e dizer-te que foi sem querer, só para que ambos passássemos pelo mesmo. Juntos. Não gosto de ser egoísta, mas penso que se o fosse desta maneira seria saudável. Não te desejo pior. Apenas mimo. Sinto-me carente quando estou doente. E é tão verdade quanto estas palavras rimarem.
Mas não estás. Sais às 08h e voltas 22h. Mas hoje... ainda não voltaste... deves ter feito horas extra... ou então não sei.
Diz que chá de limão faz bem, mas como sempre, prefiro iogurte. Adoro beber iogurtes que não são para beber. Enchogalha-se o iogurte até ficar líquido espesso e sabem melhor que os líquido. Ainda sem abrir, e como hoje a manhã está soalheira, ponho-o no parapeito da janela a ver se ele aquece um pouco ou, pelo menos, não fica tão frio. Porque assim não aleija tanto a garganta.
Procuro vestir-me apressadamente. Detesto comer à pressa. Por isso prefiro arranjar-me rápido que deglutir até me engasgar. Minimamente bem agasalhado, volto à janela e procuro beber o iogurte de comer. Um carro que não conheço aproxima-se e pressinto-te. De persiana ainda a meio , observo-te de maneira que não me vejas, por entre as frinchas. Que puta de carro em que tu vens. Negro, vidros negros. Apenas dois vultos. O teu torna-se figura quando sais. Vens a sorrir e riste-te lá para dentro. Contente, feliz, e eu triste por ver-te feliz.O teu casaco na mão mesmo com este frio. A tua cara pálida e ainda inchada da manhã. Mesmo ao longe conheço-te e recorto-te.
O primeiro do teu longo turno chegava ao fim.
O doutoreco merdoso trouxe-te; e a menina enfermeira com sida, molhadinha com a sua companhia.
Afinal... o turno... pois, as horas extra.
Seria agora o momento certo para confrontar-te com a realidade que deixaste em casa. O casamento.
Como o iogurte à pressa e engasgo-me. Procuro chegar a tempo antes que o merdoso parta sem mim. Ao descer as escadas, planeio um ataque maquiavélico, algo maldoso para atirar-te à cara e partir o merdoso à porrada.
Abro a porta com a esquerda e dou-lhe um murro com a direita. Depois puxo-o pela gravata, faço-lhe lamber o chão e, como sei, procuras separar-nos. A ti, pego-te pelos cabelos e faço-vos berrar de dor. Pego o merdoso pelo cachaço, abro-lhe a boca no lancil do passeio até ferrar os dentes na pedra. E pumba. Esmigalho-lhe o crânio. E tu vais ficar na merda por continuar comigo, palhaço com gripe. Agora! Que eu depois vou ficar bom. Portanto, depois de planear tudo isto, chego bem no momento da despedida e sorrizinhos cínicos.
Dizes: “Vai para dentro que está frio”.
Eu, olhos arregalados e a cambalear, sorrio rasgado pela inércia de poder vir a falhar o plano. Tu, de encontro a mim, preocupada com a situação, tentas impedir-me que continue a aproximação com o carro porque, como sabes, tu sabes que eu sei.
Enfrento o vulto. A porta abre. A tua mãe!, era a tua mãe o vulto, o doutoreco merdoso pelo qual tive medo.
Um carro novo, diz que comprou um carro novo para nós. O carro, a puta do carro dos vidros negros. Diz que dormiste lá em casa. Quis levar-te de manhã no carro novo e fazer-te a surpresa de o dar no final da viagem.
Digo-lhe um “Olá” quase que abafado e um “Obrigado” entre dentes. A ti, um olhar gasto pela euforia interior, mas resguardado pelo teu toque no meu braço. Tenho a desculpa de que a febre pode fazer destas coisas. Ainda descalço na calçada e de pés numa poça, abraças-me e levas-me para dentro. Sinto que a gripe vai ficar pior.
Vou precisar agora dos teus beijos para que depois fiques doente como eu. É bom ser egoísta desta maneira. Tudo para que ambos possamos passar pelo mesmo.Juntos. Isso, mimo e um chá de limão.